19 de novembro de 2009

Reportagem: Quantos quilos vale sua vida?


Revista Época. Edição 599/2009 - Todos os direitos reservados.
Quantos quilos vale sua vida contou a história da advogada Daliana Camargo, que sofre as consequências de um procedimento polêmico contra diabetes.

Daliana Camargo queria ser magra. Fez uma cirurgia de estômago não regulamentada e hoje vive como inválida. Não pode nem tomar água. O que seu drama ensina sobre obesidade e ética médica Cristiane Segatto, de Goiânia.

Quem não gosta de comparar o “antes” e o “depois” de obesos que fazem cirurgia para emagrecer? Fotos desse tipo são irresistíveis. Adoramos acompanhar as mudanças físicas e os ganhos de autoestima que impulsionam a descoberta de uma vida nova. Em geral, a transformação é para melhor. Casos de insucesso – ou de catástrofe – existem, mas não costumam chegar ao conhecimento do público. São contados no campo das exceções, dos percalços inerentes ao desenvolvimento científico.

Esta reportagem começa com um “antes” e “depois” ao contrário. O que as fotos desta página revelam é a triste história da moça gordinha (1,58 metro e 76 quilos) e saudável que decidiu se submeter a procedimentos cirúrgicos para emagrecer. A advogada Daliana Kristel Gonçalves Camargo queria alcançar o padrão de beleza que sucessivas dietas e internações em spas não lhe permitiram atingir.

Hoje, aos 31 anos, Daliana não come. Literalmente. Durante todo o ano de 2009, não pôde colocar na boca nenhuma comida. Nem um gole de água. O que a mantém viva é uma preparação proteica que ela recebe por meio de uma sonda colocada no nariz. O tubo de plástico desce pela garganta, pelo esôfago e leva o líquido especial diretamente até o intestino, onde os nutrientes são absorvidos. O estômago dela tem uma fístula, uma espécie de vazamento, que, apesar de todas as tentativas de fechá-la, de tempos em tempos volta a abrir. É por isso que Daliana não pode comer. O que entrar em seu estômago pode sair pela fístula, cair na cavidade abdominal e provocar uma grave infecção. Há duas semanas, uma tela foi colocada no órgão na tentativa de tampar o orifício. Se não funcionar, o estômago terá de ser extraído.

Na semana passada, Daliana me recebeu no quarto de sua casa, em Goiânia (leia a entrevista). Na quarta-feira, o Conselho Nacional de Saúde considerou ilegal a técnica cirúrgica a que ela foi submetida, conforme revelou epoca.com.br na manhã da sexta-feira. Daliana passa o dia deitada na cama, presa à sonda de alimentação e ao dreno que leva para fora do corpo um líquido amarelo. É uma mistura de saliva e pus. Com 56 quilos, Daliana não passa fome. Mas sente muita vontade de comer. “Poder beber água já seria muito bom”, disse. “Uma papinha, então, seria o céu.” A vontade de comer atormenta. Em momentos de crise, ela arranca tufos de cabelo e esfrega um joelho no outro até sangrar. Sente-se melhor quando toma o antidepressivo Daforin. A família se esforça para que Daliana não seja confrontada com imagens de comida. Instaurou-se na casa um regime de censura prévia. Páginas de revista com anúncios de comida são arrancadas. DVDs que mostrem atores comendo qualquer coisa – até uma simples maçã – são banidos. A nova ameaça está no quintal: é a mangueira carregada de frutos tentadores.

Daliana foi operada pelo médico Aureo Ludovico de Paula, que realiza cirurgias em Goiânia e no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O cirurgião construiu uma carreira bem-sucedida. É bastante influente no Centro-Oeste e já operou muitos famosos. Entre eles o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) e o apresentador de TV Fausto Silva. Faustão decidiu procurar o médico quando soube que ele tinha inventado uma técnica cirúrgica para combater o diabetes. Nos últimos anos, ela foi amplamente divulgada no Brasil. Em 2007, uma revista semanal dedicou uma reportagem de capa ao método de Aureo. Estampou uma maçã do amor na capa e a chamada “Cura do diabetes: a esperança está numa cirurgia”.

Centenas de pacientes diabéticos (magros ou gordos) foram submetidos à técnica. Ela é chamada de interposição do íleo. A parte final do intestino delgado (íleo) é deslocada para a porção do intestino mais próxima do estômago. A lógica por trás dessa ideia é a seguinte: como o alimento chega mais rapidamente ao íleo, aumenta a produção de hormônios do intestino que facilitariam a secreção de insulina pelo pâncreas. Além disso, é feita também uma redução de cerca de 40% do estômago. O paciente perde peso, o que diminui a resistência do organismo à insulina. Em congressos e em artigos que publica em revistas médicas, Aureo afirma que quase 90% dos doentes ficam totalmente livres do diabetes. É possível, mas a técnica que ele adota não foi aprovada para uso em humanos em nenhum lugar do mundo. Portanto, a segurança e a eficácia da cirurgia – e seus efeitos a longo prazo – são desconhecidas.

Mesmo sem ser diabética, Daliana foi submetida à interposição ileal. As circunstâncias em que essa cirurgia foi realizada deram origem a um escândalo que movimenta as principais entidades médicas, o Conselho Nacional de Saúde, o Ministério Público Federal e já chegou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Tudo começou quando, encorajada pela mãe, Vera, Daliana procurou o médico em 2002. Pesava 76 quilos e passou por uma cirurgia para colocação de um balão intragástrico, um método usado há muitos anos que, ao preencher o espaço de parte do estômago, não permite a ingestão de muita comida. Depois de seis meses, a perda de peso havia sido insatisfatória. “O doutor Aureo me disse que, seu eu pesasse 100 quilos, poderia fazer a cirurgia de redução de estômago”, diz Daliana. “Comecei a comer loucamente. Engordar era muito mais fácil do que emagrecer. Cheguei a 98 quilos e fiz a cirurgia em 2005.” Daliana e a mãe assinaram um termo de ciência autorizando a realização de uma gastroplastia laparoscópica. Gastroplastia é um nome genérico para designar redução do estômago. No relatório da cirurgia assinado pelo médico, porém, consta que ele realizou uma “gastroplastia vertical associada a interposição ileal”.

A família de Daliana diz que não foi informada de que ela tinha sido submetida a uma cirurgia não regulamentada. “O médico não nos explicou nada sobre isso. Achamos que minha filha faria uma redução de estômago convencional, a mesma que tanta gente já fez”, diz a mãe de Daliana, a funcionária pública Vera Lúcia Gonçalves de Camargo. “Vimos o termo interposição ileal no relatório dele, mas não estranhamos nada. Somos leigos.” A família afirma ter pago R$ 28 mil pela cirurgia. Daliana diz que sua vida nunca mais voltou ao normal depois de ter sido operada. “Mesmo comendo devagarzinho, eu só vomitava. Eu procurava o médico, e ele dizia que o problema era meu, que eu não sabia comer direito.” Nos últimos anos, ela foi submetida a vários procedimentos para tentar fechar uma fístula em seu estômago. Ficou internada por longos períodos, inclusive na UTI. Esteve entre a vida e a morte.

Na semana passada, o Conselho Nacional de Saúde se manifestou oficialmente sobre o assunto. Segundo o órgão que faz parte do Ministério da Saúde, a operação feita por Aureo é ilegal. O Conselho entrou com uma representação no Ministério Público Federal, em Goiânia, pedindo providências à procuradora Léa Batista de Oliveira. O presidente do Conselho Nacional de Saúde, Francisco Batista Júnior, espera que a procuradora entre com uma ação judicial impedindo a realização desse procedimento no Brasil. A cirurgia não é regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina como são todas as técnicas cirúrgicas consagradas. Poderia ser considerada experimental. Mas, para isso, o médico precisaria ter registrado um protocolo de pesquisa na Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Esse registro nunca existiu.

“Se a técnica não está formalizada nem é experimental, ela é ilegal”, afirma Batista Júnior. Segundo ele, o Conselho Nacional de Saúde está preocupado com as pessoas que fizeram a cirurgia e acham que estão bem. “A cirurgia atua sobre uma porção do intestino que é fundamental para a absorção de nutrientes. Essas pessoas precisam saber que correm o risco de desenvolver complicações imprevisíveis que podem até levar à morte.” Batista Júnior afirma que o Conselho Nacional de Saúde pretende mapear todos os pacientes que passaram pela cirurgia e acompanhar a evolução deles. “Não existe substrato na literatura científica para que essa técnica seja oferecida à população. Ela é feita por um único cirurgião, que apresenta resultados sem auditoria”, diz Thomas Szegö, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. Segundo Szegö, não é possível dizer neste momento se a técnica é boa ou ruim. “Ninguém está dizendo que a técnica é ruim. Estamos dizendo que é preciso comprovar se ela é boa ou ruim antes de oferecê-la aos pacientes”, afirma. “Se for comprovado que ela é segura e eficaz, vamos incorporá-la ao arsenal médico.” O presidente do Conselho Nacional de Saúde, Francisco Batista Júnior, afirma que os pacientes de Aureo não estão sendo devidamente informados sobre a falta de aprovação da cirurgia e sobre o risco de aparecimento de resultados inesperados.
A família não entende também por que Daliana foi submetida à interposição do íleo se ela nunca foi diabética. Não há comprovação de que seja seguro recorrer a esse expediente para reduzir a vontade de comer. Para obter exclusivamente esse efeito, existem as cirurgias clássicas de redução de estômago já testadas, reproduzidas ao redor do mundo e regulamentadas. A família entrou na Justiça de Goiânia com uma ação contra o médico. Pede o pagamento das despesas médicas e uma indenização de R$ 10 milhões. “Esse não é um caso de erro médico. É um caso grave de experiência médica sem consentimento”, diz o advogado da família, Marcelo Di Rezende Bernardes.

“Não há base na literatura médica que justifique o uso dessa técnica”, diz Szegö
A procuradora Léa Batista de Oliveira, do Ministério Público Federal, em Goiânia, investiga o caso desde julho. Recebeu nesta semana a representação do Conselho Nacional de Saúde. Pretende entrar com uma ação penal de lesão corporal e exercício ilegal da medicina contra Aureo Ludovico de Paula. Antes disso, vai solicitar que Daliana seja submetida a uma perícia médica e vai ouvir o médico. “Com base nas investigações que fizemos até agora, tudo indica que esse é um caso de grave violação dos direitos humanos”, diz Léa. “Estamos diante de experiências realizadas em desconformidade com todas as normas vigentes. O médico não informa devidamente os pacientes sobre os riscos da cirurgia, não tem protocolo de pesquisa, faz publicidade de uma técnica não regulamentada e cobra por ela”, diz Léa.
Na quarta-feira, ÉPOCA esteve no consultório do médico Aureo Ludovico de Paula, em Goiânia. Ele se recusou a dar entrevista e fez ameaças jurídicas. Disse que não fala sobre sua técnica nem sobre o caso Daliana. Em sua defesa no processo que corre no Tribunal de Justiça de Goiás, porém, o médico alega que “a cirurgia não é experimental, e sim uma variante técnica de uma cirurgia consagrada há mais de 20 anos”. Afirma que “a paciente não foi objeto de nenhuma pesquisa, e sim de terapêutica para obesidade e que a complicação ocorrida aparece na mesma frequência em outras operações bariátricas”. Diz que “a fístula é uma resposta orgânica espontânea da paciente. É intercorrência imprevisível, uma complicação pós-operatória sem nenhum nexo com o procedimento realizado adequadamente”.

Muitos pacientes operados por Aureo dão testemunhos de bons resultados. Procurado por ÉPOCA, o apresentador Fausto Silva disse que está bem, mas não quis dar detalhes sobre sua saúde. Aureo está sendo injustiçado, como acreditam leitores da reportagem publicada no site de ÉPOCA? Pode ser. Não é impossível que no futuro a técnica de Aureo passe a ser usada no mundo todo e ele seja consagrado como pioneiro. Para que as técnicas cirúrgicas avancem, é preciso uma dose de ousadia. Se não fossem os profissionais que aceitam correr os riscos, muitas possibilidades cirúrgicas disponíveis hoje simplesmente não existiriam. Mas, quando um cirurgião decide testar em humanos uma técnica nova, deve fazer isso com toda a transparência, de acordo com as normas vigentes no país e submeter-se à avaliação isenta dos resultados. Os fatos sugerem que Aureo não obedeceu a esses procedimentos.

Outras estratégias cirúrgicas para tentar reverter o diabetes estão sendo testadas no país. Mas os protocolos de pesquisa foram devidamente avaliados e aprovados pela Conep. O cirurgião Ricardo Cohen, do Centro de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, testa uma técnica chamada de exclusão duodenal. O duodeno é a primeira parte do intestino delgado. Ele é excluído do processo digestivo por meio de laparoscopia. Além disso, cerca de 20% do estômago é retirado para eliminar a produção de grelina, o hormônio da fome que piora o diabetes. A alteração parece aumentar a produção de hormônios que melhoram a ação da insulina no pâncreas. “Fomos os primeiros no mundo a testar essa técnica e acompanhamos os pacientes há quatro anos”, diz Cohen. “Não podemos falar em cura, mas, um ano após a cirurgia, 75% dos pacientes ficam com a doença controlada. Não precisam mais tomar insulina nem remédios.” Cohen obteve autorização das autoridades para começar outro estudo. Vai comparar a técnica cirúrgica com o melhor tratamento clínico disponível atualmente. O estudo tem a participação de pesquisadores da Universidade de Washington e será feito no Hospital Pró-Cardíaco, do Rio de Janeiro. Nenhum dos voluntários pagará nada.

É assim, a passos lentos e planejados, que a medicina avança. Muitas vezes, porém, esse processo é incompatível com a ansiedade dos pacientes que buscam novos recursos. Os brasileiros, em particular, têm adoração pelo que é novo, novíssimo. Isso pode ser bom quando se trata de um bem de consumo qualquer: um celular, um carro, um tocador de música. Quando a questão é saúde, a história é outra. Nem sempre a técnica cirúrgica mais moderna é a melhor. Faz sentido buscar uma técnica experimental quando os médicos não têm mais nada a oferecer. Não faz sentido procurar desesperadamente por uma novidade (e pagar caro por ela) quando estão disponíveis recursos que já tiveram sua eficácia e sua segurança comprovadas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário