8 de agosto de 2010

Parte 40 - Ex-obesos e suas aventuras.


Pedra do Sino

Eu estava pesquisando em revistas, sites e conversando com amigos, sobre alguns destinos de aventura aqui no Rio de Janeiro. Em abril de 2010, por intermédio da Mel e da Vivi, isto é, Maria Elisa e Vivian, respectivamente, amizades que fiz recentemente, acabei sendo convidado a subir a Pedra do Sino, pois ambas já tinham ido lá, e acabei ficando entusiasmado pelo relato das duas.

A Pedra do Sino, com 2.275 metros de altitude, é o ponto culminante do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, que fica na cidade de Teresópolis, aproximadamente 70 km da cidade do Rio de Janeiro. Não tive dúvidas, pensei que seria desafiador realizar esta aventura, foi então que decidi formar um grupo, liguei para uns amigos, pois eu queria agrupar alguns ex-obesos para tal trekking. Conversei com os meus amigos Marcos Henrique, Tulio Bambino, Juliana Passos, Leandro Zeus e sua namorada Flávia Fontenelle, fizemos todos os preparativos, organizamos a logística da viagem e marcamos a data.

Nosso grupo era de 11 pessoas, no qual 6 dos participantes, se juntassem o peso perdido, dariam mais de 400Kg, parando para pensar, um número impressionante não? Cada um está num estágio da vida, e um com mais tempo que o outro de cirurgia, alguns como apenas 5 meses, que é o caso do Leandro, que meses atrás, mal conseguia ir na esquina de casa, e agora estava ali para encarar 5 horas de subida até o Sino.

Nosso grupo começou a todo vapor, logo se formou o pelotão da frente, e puxado por uma locomotiva chamada Tulio Bambino, que já jogou pelo ralo um torno de 100 quilos, o Tulio era um mega obeso, e vê-lo equipado e praticando tal esporte, me deixa bastante orgulhoso. Com algumas horas de caminhada, o grupo se dividiu, o Tulio que estava na frente, disparou numa tocada impressionante, eu poderia ter feito o mesmo, mas fiquei atento as pessoas que estavam um pouco mais para trás, eu ficava subindo e descendo correndo, queria dar força e motivar o grupo de trás, eu sabia que não seria fácil, mas em nenhum momento eu deixo de incentivar, dar força e apoiar. Eu estava mais preocupado com o Leandro, até porque, ele não tem tanto tempo de cirurgia, e para ele, eu sabia que esse seria o maior desafio da vida dele.

Depois de 70% do percurso feito, acabei me unindo ao pelotão do meio, que foi formado pela Mel, Vivi, Gabrielle e Luana, acabei perdendo de vista, e contato com o pessoal de trás, que estava sob a orientação do Marcos Henrique. Quando nos aproximamos do Abrigo n.º 4, que fica praticamente no topo da Pedra do Sino, avistamos o Tulio Bambino, a locomotiva em pessoa, ele estava na sua tocada a passos largos em direção ao Sino.
Nós do grupo intermediário, resolvemos parar no abrigo n.º 4 para recuperar o fôlego. Naquele momento, o meu cronômetro, já marcava ali umas 4 horas e meia de subida, e a minha cabeça não saia do pelotão de trás, cheguei até descer um pouco a trilha, para ver se achava algum deles, mas não havia nem sinal da turma.

Depois de repor as energias, partimos em direção ao Sino, e no meio da subida encontramos novamente com o Tulio, ele já estava batendo em retirada, chegou a perguntar pelo restante do pessoal, mas eu disse que havia perdido o contato também. Continuamos subindo, e quando estava quase lá no topo, olhei para trás e avistei bem de longe a turma de trás. Minha alegria foi imensa, fiquei eufórico e vibrante, pois o pessoal não havia desistido, e esta era a minha maior preocupação. Continuamos subindo e o frio aumentando, e quando chegamos lá, depois de 15 minutos aproximadamente, eles chegaram, cansados, mas ao mesmo tempo eufóricos e realizados. Depois sentamos e batemos bastante papo, até fiquei sabendo que a Flávia, namorada do Leandro, ficou incentivando ele o tempo todo, que bom que ele não desistiu! Eu pensei...

Depois de estar lá no topo da Pedra do Sino, bateu outra preocupação, nosso grupo teve que se dividir novamente, é que nós estávamos tão encantados com o lugar, que decidimos pernoitar, pois além de cansados, já estava tarde para descer, era certo de pegar escuridão no caminho de volta, e dormir lá , seria a única alternativa, ou a mais viável naquele momento. Mel e companhia decidiram descer, emprestei uma lanterna de cabeça, e elas partiram em retirada também.

Exploramos o lugar por mais de 2 horas, descansamos e ficamos conversando do grande feito, só que tínhamos que garantir o nosso pernoite, e infelizmente não estávamos preparados. O ruim de furar o cronograma, é que podemos passar por situações que não estamos esperando, e foi exatamente o que aconteceu, não estávamos preparados para dormir lá, mas infelizmente imprevistos acontecem, e nessas horas, temos que ter sempre um plano B, foi então que decidimos descer, e garantir o nosso lugar no Abrigo n.º4.

Chegamos lá no abrigo, e logo fizemos amizade, principalmente com o gestor, que atende pelo codinome Jesus, um cara gente boa e de personalidade tranquila, ele logo nos mostrou o lugar, e também nos deixou bem à vontade. A nossa maior dificuldade naquele momento, não era o cansaço, era com a alimentação, nós somos gastroplastizados, e temos uma rigorosa regra de ingestão de alimentos, tudo deve ser na hora certa, nossa dieta não pode ser quebrada, já que temos que ficar atentos com absorção de vitaminas e proteínas do nosso organismo. Nós tivemos que racionar os nossos alimentos até o dia seguinte, nós nos organizamos e nos dividimos nessa tarefa. Toda experiência você colhe um fruto positivo, nessas horas de dificuldade, é que o companheirismo fala mais alto, conseguimos nos virar muito bem com o restante dos nossos alimentos.

Depois veio outro pensamento, outra preocupação, principalmente no cair da noite, ou seja, o frio, os termômetros estavam em torno de 6° graus de noite, e com o vento, a sensação térmica era ainda maior, mas com os nossos casacos, anoraks e mais os cobertores do abrigo, conseguimos nos virar bem, antes de dormir fizemos uma espécie de “teste drive”.

No cair da noite, eu e Marcos Henrique, ficamos fora do abrigo, curtindo o frio e batendo papo, e fomos informados por um aventureiro de passagem, que havia outra trilha ali perto. Não deu outra, pegamos nossas lanternas de cabeça, e partimos pra lá. Nós descobrimos que esta trilha dava numa outra pedra, que fica paralela à Pedra do Sino, nós gastamos apenas 15 minutos até o topo dela. Chegando ao local, nós nos deparamos com um visual incrível, a cidade lá embaixo toda iluminada, todo o Rio de Janeiro, foi incrível, sensacional e magnífico.

No dia seguinte, ainda no frio intenso da madrugada, levantamos bem cedo, nós queríamos ver o nascer do sol. O Leandro ainda estava meio com preguiça, mas conseguimos convencê-lo a ir, e nós fomos para esta mesma pedra, uma trilha fácil, e ainda dava para ver o Sino ali lado, aquela pedra toda imponente e cheia de mistérios.

Depois de conferir o nascer do sol, que por sinal foi o mais espetacular de nossas vidas, resolvemos retornar para casa, nossa aventura estava completa, ou quase, pois ainda tinha a descida, e nossos pés já não eram mais os mesmos. Passamos no Abrigo n.º 4, arrumamos nossas mochilas e partimos em retirada, foram 4 horas e meia descendo, como previ, nossos pés ficaram meio calejados, as pernas doloridas, mas nada que tirasse a nossa satisfação por ter realizado um sonho, de ter feito esta grande proeza em nossas vidas. Posso dizer que nos tempos da obesidade, eu teria até coragem de fazer tal aventura, resta saber se teria fôlego. Mas felizmente nos dias atuais, a minha condição e a dos meus amigos é outra, e no que tange ao limite para as nossas aventuras, eu diria que o céu a partir de agora é que será o limite.

Eu me chamo Luis Henrique Marques, sou um homem de grandes mudanças, de transformações físicas e emocionais. Sou um homem de estômago pequeno, mas de sentimentos infinitamente grandes.

Um comentário:

  1. Parabens Henrique!!! estou prestes a fazer a cirurgia, espero passar por essas aventuras em breve!! abracos... Luis Braga Neto

    ResponderExcluir